Ontem, à noitinha, estive a ver um programa no canal História sobre cidades portuárias perdidas na antiguidade — por exemplo, o antigo porto de Alexandria, ou a cidade submersa de Yonaguni.
As ruínas de Yonaguni
Hoje sabemos que o antigo porto de Alexandria foi destruído, mas não se tem a certeza das causas dessa destruição; há quem defenda a tese de um terramoto seguido de um maremoto, mas esta tese não explica por que razão o antigo porto de Alexandria passou estar submerso pelas águas do mar Mediterrâneo: um maremoto não significa necessariamente a submersão irreversível de um território; por exemplo, Lisboa foi sujeita a um maremoto no seguimento do terramoto de 1755, mas as águas do mar recuaram, depois da submersão. E também não existem documentos escritos que descrevam o fenómeno natural que devastou o porto e a cidade antiga de Alexandria.
Em contraponto, a destruição de Pompeia pela erupção do Vesúvio foi descrita e documentada por Plínio, o jovem; e por isso é que hoje sabemos, com algum detalhe, o que se passou, naquela ocasião, na região de Pompeia. Isto para dizer que quando os acontecimentos históricos não são relatados por escrito, acontece uma de duas coisas: ou esses acontecimentos se transformam em mitos, por via da transmissão oral intergeracional, ou ficam pura e simplesmente esquecidos para a História. Por exemplo, o que se passou em Yonaguni foi totalmente esquecido pela cultura japonesa, a ponto de os próprios japoneses estarem hoje intrigados pela existência dessas ruínas submersas.

Já lá vão alguns anos, vinha no carro e ouvi, na TSF, uma mulher do CDS/PP — não tenho a certeza se foi Assunção Cristas, mas penso que terá sido Teresa Caeiro — dizer que “hoje já não existe uma separação distinta entre a direita e a esquerda”; ou, talvez, dizer que “a direita e a esquerda já não se distinguem”. Nunca mais me esqueci da ideia dessa frase vinda de alguém do CDS/PP. E talvez por isso é que se explica a existência de “submarinos” no CDS/PP de Paulo Portas; e talvez por isso é que a saudosa Maria José Nogueira Pinto foi “convidada” a sair do CDS/PP de Paulo Portas.
Essa frase [de Teresa Caeiro?] insere-se na ideia absurda do fim das ideologias, ou do Fim da História, segundo Francis Fukuyama que secundou Karl Marx. Porém, a diferença entre a direita e a esquerda não está nas ideologias propriamente ditas, mas também na forma de estar no mundo e de ver a História. Há indivíduos que se dizem de direita — e até militam no CDS/PP — e que são intrinsecamente de esquerda; e há outros que, ou votam circunstancialmente à esquerda, ou não têm militância partidária, mas são intrinsecamente de direita.
O homem de direita é paradoxal, no sentido em que concilia a necessidade da ordem na sociedade, por um lado, com a liberdade, por outro lado — por intermédio das noções de transmissão cultural ou de herança histórica, seja pela transmissão cultural documentada e inscrita na cultura e relativa a uma fidelidade histórica, seja pela herança mitológica. O homem de direita revê-se nos relatos de Plínio, o jovem, acerca de Pompeia, que o fazem compreender a História e, sobretudo, mantê-la viva.
O homem de esquerda é dogmático e fiel ao seu tropismo revolucionário que pretende abolir e fazer esquecer o passado — mas esse esquecimento do passado não tem a intenção de libertar o Homem, mas antes deve servir para "construir o Homem Novo", des-racionalizado e presentista. O homem de esquerda revê-se no esquecimento de Yonaguni que tende a transformar o passado num enigma.
O. Braga | Segunda-feira, 28 Maio 2012 at 11:10 am | Categorias: Ut Edita | URL: http://wp.me/p2jQx-bJy