Se olharmos para a história dos últimos 300 anos, verificamos que os totalitarismos [comunismo, nazismo, etc.] começam sempre por uma qualquer forma de libertarismo radical.
Este postal [cujo autor é aqui denominado por “escriba”] é esclarecedor acerca do que está por detrás da tentativa de legalização das barrigas-de-aluguer: começa por falar em “preconceitos” — como se o escriba não tivesse preconceitos — para depois falar nas pessoas que não têm filhos alegadamente porque [e só por essa razão, presume-se!] as barrigas-de-aluguer não são legais.
A ideia segundo a qual existe uma casta moralmente superior que não tem preconceitos é extraordinária. Quem escreveu aquilo não se deu conta da contradição em que incorreu.
Não existe uma qualquer cultura sem tabus — uma cultura sem tabus é um círculo quadrado —, e o tabu é sempre uma forma de preconceito. Ademais, existem dois tipos de preconceitos: os preconceitos negativos [aqueles que não estão disponíveis para discussão, se fecham em doutrina e se transformam em dogma], e os preconceitos positivos [que são aqueles que estão abertos à discussão].
Quando alguém diz que “eu não tenho preconceitos e aquele grupo de pessoas é que os tem”, estamos perante uma forma fascizante e totalitária de pensar a realidade, porque se parte de um maniqueísmo [os bons, de um lado, e os maus do outro] que recusa a priori a discussão em nome de um determinado princípio de superioridade moral. Todo e qualquer argumento que seja contra as posições assumidas pelo escriba transformam-se automaticamente em "preconceitos", e portanto, são posições heréticas em relação à ideia segundo a qual “o único preconceito que existe é a ausência de preconceito” [é proibido proibir].
Essa gente não é séria. E por isso é que a ideia de “progresso da opinião pública” se transformou em um problema muito sério para nossa sociedade. Repare-se nesta proposição:
“As pessoas - todas as pessoas - têm ou adoptam filhos porque sentem que isso lhes completa a existência, ou seja, por egoísmo.”
Estamos aqui em presença de uma falácia naturalista que resume o conceito de felicidade ao egoísmo ou ao prazer — neste caso, a criança é considerada um mero utensílio ou instrumento da felicidade dos adultos.
Ainda hoje, os cientistas da biologia não conseguem explicar o fenómeno da compaixão humana. O que faz com que um homem se lance em uma casa em chamas para salvar uma criança que ele próprio não conhece? O que faz com que um indivíduo se lance às águas do rio para salvar uma pessoa que ele não conhece, acabando por perder a vida nesse acto? Como explicar a acção junto das crianças de Madre Teresa de Calcutá? Como explicar, entre muitíssimos outros casos, a atitude de Horia Cretan?
No seu livro “O Mistério da Caridade”, o mundialmente conhecido psicólogo ateu Morton Hunt escreveu que “até agora, é simplesmente desconhecido o que leva heróis impulsivos a arriscarem as suas vidas por pessoas estranhas; a investigação não oferece praticamente nada como resposta a esta questão”.
Portanto, e segundo podemos compreender pelas ideias do escriba, as pessoas arriscam a vida pelos outros por uma questão de ... egoísmo...! Vemos, assim, como é possível a manipulação e/ou a destruição da linguagem: quando o altruísmo passa a ser uma forma de egoísmo, a linguagem está destruída; e por isso mesmo é de essencial importância que as pessoas se agarrem aos princípios e aos valores, porque o discurso contemporâneo deixou de fazer sentido: estamos em “1984”, de Orwell.
E depois, mesmo que fosse verdade que “todas as pessoas têm ou adoptam filhos porque sentem que isso lhes completa a existência, ou seja, por egoísmo”, onde fica situado, nesta concepção de felicidade, o egoísmo da criança? A criança não tem direito ao seu próprio egoísmo, só porque ainda não nasceu ou porque ainda não tem idade para fazer a sua "escolha egoísta"?
O que está em causa aqui é a paulatina construção de um novo totalitarismo em nome de ideias libertárias. O projecto é sinistro, porque se constrói um totalitarismo em nome da luta contra o totalitarismo; o cidadão incauto e inculto entra em dissonância cognitiva, em uma espécie de esquizofrenia conceptual. O escriba dirige-se para este tipo de cidadão, porque não consegue enganar quem tem dois dedos de testa.